04/08/2020 08:39

Perdendo a Noção do Tempo

Mara Narciso

As crianças, em geral, impacientes, reclamam da demora de tudo. Quando estão desocupadas, especialmente nas férias, perguntam às mães, o que irão fazer agora. Cansam-se das brincadeiras. Estão habituadas ao ritmo acelerado da internet e dos videogames e em pouco tempo as atrações as entediam. Nas viagens, dão intervalo de poucos minutos para novamente perguntar se já estão chegando. Quando aborrecidas, perguntam às professoras, de instante em instante, quando a aula acabará. Um ano demora uma década e oA aniversário nunca chega. Seria por falta de referência? A ausência de experiência anterior, para comparar, torna o tempo insuportavelmente longo? Como os cinco sentidos são mais aguçados, com intensidade máxima, os gostos, cheiros, sons e experiências ficam impressos para sempre, com características acentuadas e mágicas. Já a percepção da medida da passagem do tempo, especialmente de espera, parece lentificada. 

O percurso de ida costuma ser mais difícil e demorado do que o caminho de volta, seja ele urbano ou rural, viagem ou passeio. Muitos experimentam uma sensação de encurtamento do tempo, quando estão voltando. A vivência da ida tem o poder de encurtar a impressão da medida do tempo no retorno? 

A literatura está cheia de referências de que a vida rural passa devagar (quase sonolenta) do que a existência na cidade. A medida do tempo seria igual, mas a impressão, devido ao silêncio, falta de horário rígido, dão à experiência na roça, uma percepção mais suave. Quem trabalha no campo sabe que tem de executar as tarefas com rapidez para finalizar, enquanto o sol brilha. Vão para o trabalho antes de o sol nascer, e voltam quando o sol esfria. O serviço ao ar livre é pesado e em posições incômodas. Só de olhar, o citadino já sente dor nas costas. Teria o lavrador essa mesma sensação de tempo lento? 

Quanto ao coronavírus, o grupo de risco, pessoas com mais de 60 anos, como também quem pode cumprir o isolamento social, estão em casa desde meados de março. O confinamento autocolocado por imposição/ convicção, encosta nos 120 dias e não tem prazo para acabar. A flexibilização de volta ao trabalho dos diversos setores dos municípios, vem sendo feita em cada um deles a sua maneira, chegando a ser questionada por muitos, considerando-se que o pico da doença não aconteceu. Há muitos dias morrem mais de 1200 brasileiros de covid-19 nas 24 horas. É tempo de abrir, ou de fechar? Mortos não trabalham e nem consomem. A economia mundial desmoronou. O que fazer? 

Enquanto isso, os isolados sociais cuidam de si e da casa, recebem a feira na porta (valorosos produtores e entregadores, que não podem ser esquecidos), se entediam, vivem momentos melancólicos e desesperançados, e outros de ânimo e coragem. Uma observação recorrente é a sensação de que os dias, muito iguais, ao contrário do que se esperava, passam aceleradamente, e mal se acorda, já é hora de dormir. A semana voa de tal forma, que parece que o sistema de rotação da Terra se alterou com a existência do SARS-COV-2, e está mais acelerado; coisa que não se percebia desde 2011, quando um terremoto de 8,9 graus Richter, com tsunami de dez metros no Japão, alterou o eixo de rotação do planeta e alguns tiveram a impressão de tempo passando rápido.

 

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