29/10/2020 04:32

Centenário de Ismar Ferreira

Mara Narciso

Quando conheci Dona Ismar, uma mulher de pele clara e cabelos castanhos, eu tinha 11 anos de idade, e achei interessantíssimo o nome dela, porque era o mesmo do meu tio Ismar, de Januária. Morava à Rua Dr. Veloso, e era mãe de minha colega no Colégio Imaculada Conceição, Dulcemar Soares - Dulce. Era culta, dinâmica, trabalhava num escritório como contadora, supervisionava a casa e ajudava nos trabalhos da escola, numa polivalência que sempre foi a sua marca, uma pioneira que começou a trabalhar numa loja aos 13 anos de idade, em 1933, quando Montes Claros engatinhava. Logo depois, se dedicou à contabilidade, mostrando-se independente sob vários aspectos. Seu pai, Orosimbo visitava a casa, fumava cigarro de palha e travava longas conversas com ela, que se abria em atenções. 

Marcando presença em todos os nossos momentos difíceis, manifestava uma serenidade impressionante. Como Dulce e eu nos tornamos muito amigas, tive a oportunidade de estar com Dona Ismar com frequência, por décadas. Incansável, tempos depois se desdobrava entre a casa e as escritas no local de trabalho, que ficava ao lado da residência, agora, noutra edificação da mesma rua. Com tudo estalando de novo, fixou-se para mim a imagem de um jogo de sofá de veludo verde escuro, e uma dupla de namoradeiras vermelhas, além de cortinas de renda. A copa era avarandada, e nela, ficava uma permanente mesa posta com café. De vez em quando chegava alguém do escritório para tomá-lo, seja Rodney, seja Edson. 

Em certas épocas, Dona Ismar vinha fazer o almoço, ou, nos intervalos, fazer patê de frango ou cachorro quente para levarmos nos passeios ao clube. Numa casa anexa, onde ela, leitora assídua, tinha uma vasta biblioteca, estudávamos, fazendo deveres e trabalhos em equipe. Foi lá que iniciei meu primeiro namoro, com Geraldo Macedo, então colega do científico no Colégio São José. O pedido e a aceitação foram feitos pelo WahatsApp da época: bilhetinhos de papel, nas presenças de Dulce e Cristina, em meio a muitas risadas. 

Dona Ismar passou a vida a nos salvar da repressão e do tédio. Meu pai, Alcides e o pai de Dulce, Seu Ricardo, nos travando, eram, adequadamente convencidos pela nossa protetora a nos deixar sair e passear. Comprou uma televisão a cores, um carro Corcel branco, uma cota no Pentáurea Clube, e nos bancava a gasolina permitindo-nos passear de carro todos os fins de tarde: sobe a "Doutor" e desce a "Camilo", na época em que eram estas as mãos de direção das ruas Dr. Santos e Camilo Prates, no miolo da cidade. 

Dava-me vestidos para que eu pudesse ir, e então levava-nos às festas, clubes, passeios, viagens. Com sua maneira discreta, voz suave e um leve sorriso, era a mãe adequada para todas nós. Certa vez, à noitinha, estávamos Dulce e eu ouvindo música ao gravador, quando tocou "Valsinha" de Chico Buarque, então, na moda, enquanto olhávamos pela janela, os rapazes passando de carro. O gravador tocou a introdução, e Dona Ismar, que vinha entrando, falou: vocês podiam ouvir uma música mais alegre. Essa é tão triste. No verão de 1977, ano em que eu me casaria (Dulce se casou 85 dias depois), fomos fazer uma viagem a Jacaraípe - ES, em dois carros, ocasião em que Dona Ismar alugou uma casa em frente ao mar. Ainda que no improviso, e um dos carros com problema, foi uma daquelas viagens que a gente nunca esquece, pelo ponto de equilíbrio, representado por ela, uma mulher de coragem, que controlava uma situação adversa, apagando incêndio, silenciosamente. 

Após se aposentar, definitivamente, quis continuar trabalhando, e ficava na Loja da Costureira, de propriedade das suas filhas Dulce e Maria Luiza, parte do dia, atrás do balcão. Isso a distraía, pois os números eram o seu universo. Vendia aviamentos e fazia complexas contas de cabeça, especialmente de frações de metros, numa memória prodigiosa. 

Nascida em 30 de setembro de 1920, completaria cem anos agora, coisa nada improvável, considerando-se que muitos dos seus familiares ultrapassaram, e muito, a marca dos noventa anos, que ela não atingiu, falecendo três meses antes, na manhã de 19 de junho de 2010. No momento em que eu defendia meu TCC na FUNORTE, finalizando o curso de jornalismo, partia para sempre Dona Ismar, uma desbravadora, que nos mostrava o caminho, abrindo espaço com as mãos para que pudéssemos passar em segurança. Ela, que foi uma espécie de Mahatma Gandhi de saias, e que, à maneira dele, fez sua revolução de forma pacífica, sem dar nem um tiro. À minha inesquecível amiga Ismar Ferreira, um exemplo a seguir, todas as reverências.

 

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