30/11/2020 05:18

Imortalidade literária

PETRÔNIO BRAZ 

Para tornar-se imortal, Zeus ao nascer pediu a Hermes que o levasse para junto do seio de Hera, quando essa dormia, e o fizesse mamar. A imortalidade, assim, depende de um ato ou de um fato. São imortais os humanos que mamaram nos seios de Atena, a deusa grega da sabedoria.Sou levado a lembrar que a imortalidade se faz presente, não pela visão do ser, mas pela memória de uma existência, que deixou marcas particularizantes. 

Não precisamos descer ao Inferno de Dante, na companhia de Virgílio, representante maior da sabedoria humana, para de lá subirmos ao Paraíso em estado de perfeição. A perfeição é atributo dos deuses, não dos homens. O poeta florentino buscou a sua autorrealização obediente aos conceitos de sua época, firmado no convencimento da existência de vida além da morte, em presença da imortalidade da alma. 

Se admitida a criação divina do homem, feito à imagem e semelhança do Criador, o ser humano foi concebido imortal. Os gregos foram mais objetivos. Eles criaram os deuses à sua forma e similitude, habitando o Monte Olimpo, aqui mesmo na Terra, e deram a eles os sentimentos humanos, dotados da faculdade de conhecer, perceber e apreciar, com disposições afetivas em relação à vida terrena. Por terem convivido com os sentimentos e a força criativa dos deuses do Olimpo, que com os homens ainda se misturam transmitindo valores em um plano superior, alguns se tornam análogos às divindades do classicismo grecoromano. São os humanamente imortais. 

A ideia da imortalidade, como uma busca desesperadora, está presente no ser humano, por ser ele o único animal da face da Terra a ter certeza de que nasceu, está vivendo e morrerá um dia. Mas, sem a certeza da morte, os humanos não teriam prazer pela vida. Imagine-se, como na história de Gregory Widen no filme “Highlander – O guerreiro imortal”, atravessando os tempos, assistindo à evolução da humanidade e percorrendo o caminho trilhado por Connor MacLeod, nascido há mais de 400 anos nas colinas da Escócia! 

O excêntrico argelino Jean Richepin estava certo ao asseverar que “se fosse imortal inventaria a morte para encontrar algum prazer na vida” e o rei Salomão, por inspiração da pomba Butimar, com sabedoria, escusou-se de beber o vinho da imortalidade, para não ser o mais infortunado dos homens.

 

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